Ministro, o papo tem que ser reto!
Desde de Cidade de Deus, sempre espero algo de bom do cinema nacional. Domingo passado, chegou a minhas mãos uma versão genérica de “Tropa de Elite”. A mesma versão que segundo o ministro Gil, expõe “o paradoxo entre o mercado e o acesso”.
Minha curiosidade foi mais forte do que minha vontade de ir ao cinema, e minutos depois, tive meu primeiro contato com o novo herói nacional, o capitão Nascimento.
O filme confirmou algumas de minhas expectativas, porém superou em muito, outras. Esteticamente, ele não possui a mesma sofisticação de Cidade de Deus, principalmente quanto a fotografia e montagem. Porém, eu já sabia que não era essa a proposta.
Sei que a comparação não é pertinente, mas é inevitável, pois, além de tratar do mesmo tema, precisamos de um referencial para avaliarmos o que é lançado. Que a referência então seja a melhor.
O que eu não esperava era me surpeender com a realidade. Se ninguém vier nos contar o que acontece no morro, mesmo uma imaginação muito fértil não chega nem perto do que é. A violência em Holywood não choca, afinal é de mentirinha. Em Tropa de Elite o morador do Rio, ou mesmo de São Paulo não fica indiferente.
Se o contexto fosse outro, seria normal ver o ministro da cultura discorrendo sobre a pirataria de um filme antes de seu lançamento. Anormal porém, é não questioná-lo se a pirataria não é uma decorrência do interesse público pelo conteúdo do longa. Cujo tema aborda violência, falência da polÃcia, do Estado corrupto, e atitude da classe média.
Antônia, minissérie da Rede Globo que também teve sua exibição na tela grande, foi um fracasso de público. Esse não foi pirateado. Não causa a mesma indentificação de todos com uma situação caótica, um lugar onde o Estado não existe. É difÃcil de acreditar que tudo aquilo faz parte do dia-a-dia dos cidadãos do Rio. Mas é tudo real. Tudo baseado em relatos de participantes.
O capitão Nascimento virou herói nacional porque expressa a raiva do cidadão impontente. Que confia seu voto nos polÃticos e recebe em troca a notÃcia de um menino de 5 anos arrastado por 5 quarteirões num assalto.
Tropa de Elite não é um paradoxo entre o mercado e o acesso. Não é só entretenimento. Acontece de verdade, todos os dias.
11 Oct 2007 doug 2 comments


