O estudante de TI e o motorista de táxi
Era final de tarde. A fila para a integração com o metrô dava voltas escada a baixo até a marginal do rio Pinheiros.
Do lado oposto da rua, ele fita aquela mistura de trabalhadores e estudantes com desânimo. Consulta as horas no seu celular, está atrasado. Sua mente então dispara na busca de uma “tag” que ilustre bem a situação. Ele tinha prova marcada para a primeira aula.
Eis que,sem demora, chega resultado: “Fudeu!”.
O plano “backup” era de pegar um táxi até o metrô. E assim o fez.
- Tá fazendo corrida? - pergunta ele ao senhor de meia idade, deitado com o banco inclinado para trás.
- É pra já, chefe.
- Caramba você tem até uma televisão aqui dentro.
- Ah meu filho, o motorista que fala que o táxi não é a casa dele, tá mentindo. Eu passo dezoito horas do meu dia aqui dentro. Começo às seis da manhã e vou quase até meia-noite.
- Sei como é, também saio cedo, vou pro trabalho e to indo para a faculdade agora. Só vou chegar em casa depois das onze também.
Ele observa que a pequeno aparelho de tv, quatorze polegadas, situado embaixo do painel, além de o impedir de esticar as pernas, estava mudo.
- Tá sem som?
- É que eu fiz uma gambiarra lá trás, liguei a tv no som do carro para sair nas caixinhas laterais. Mas o cabo tá zuado. Olha só…
O motorista então mexe num fio respousado próximo ao câmbio do carro e o som da partida de futebol volta a funcionar.
- De tarde o movimento deve ser mais fraco né? A tv deve ajudar nessas horas…
- Com certeza. É eu fico o dia todo nesse carro, mas também no fim de semana eu me acabo.
Assim que acaba o expediente na sexta, vou direto pra balada. Eu sou muito putanheiro, sabe? Nem meu muleque me acompanha.
- É mesmo? - Ele pergunta pensando que aprendeu mais uma “tag”, putanheiro.
- É ele fala pra mim: “Não dá pra acompanhar você não pai”. Quando eu to trabalhando eu não tomo uma gota, zero. Os companheiros fazem um churrasquinho enquanto a gente revesa quem pega passageiro no ponto. Mas também quando eu to de balada, nem meu muleque me acompanha.
- Vixe na sexta eu to quebrado, vou direto para casa. - diz o estudante ajeitando sua mala targus que aos poucos escorregava de seu colo. Ele já dava sinais de impaciência com o trânsito parado a apenas cinco quadras do metrô.
- Você tá estudando o que? - pergunta o motorista.
- Sistemas de informação.
- Informática?
- Isso aí.
- Tá na moda essa profissão né? A gente ouve muito falar nisso aí. Mas sabe, pra eu manter o meu padrão de vida eu precisaria ser diretor.
O estudante pensa no que acabou de ouvir e responde: “Ein?”.
- Ah meu, pra eu tirar cinco ou seis conto livre no mês, eu ia ter que ralar pra caramba numa empresa. Ia ter que fazer faculdade e o caralho. Não compensa não.
O estudante começa a fazer algumas contas de cabeça e chega a conclusão que ganha um quarto do salário do motorista. Lembrou que ainda assim é considerado um bom salário para sua categoria de programador em linguagem PHP. E mais ainda, que metade de seu ordenado, era destinado à mensalidade da faculdade.
O carro embica na última ladeira que dá acesso à avenida da estação. O motorista acelera e o ronco do motor aumenta fortemente.
- Olha só como ele perde potência com o gás. Se eu mudar pra gasolina agora, subo isso aqui facinho. - explica o motorista.
Finalmente o táxi estaciona em frente ao terminal dos ônibus. O estudante olha o taxímetro marcando dezessete reais e saca a carteira do bolso. Ao abri-la, uma surpresa. Ele só tinha dez.
- Nossa, vamos ter que passar no caixa eletrônico. Preciso tirar dinheiro, eu só tenho dez reais aqui.
- Não tem problema, depois você me paga. Você faz sempre esse trajeto não é?
- É sim.
- Então, depois você me paga.
- Tem certeza?
- Claro.
- Ok. Obrigado.
O estudante então sai do carro em direção à estação do metrô com o seguinte pensamento: “Aqueles sete reais fazem mais falta para mim, do que para ele”.
29 Aug 2007 doug



Meu, taxista ganhando 6k por mês? é ruim, hein… é ruim! muito garganta esse taxista, isso sim… e outra, programador pode sim, ganhar mais q isso por mês, é só usar a cabeça… abraços!
Acredito que um taxista pode muito bem ganhar 6 mil por mês, e ganhar até bem mais que isso, se “usar a cabeça”. Especialmente trabalhando 18 horas por dia.
No Brasil, a graduação universitária é uma das maiores frustrações de profissionais técnicos. São quatro, cinco anos de mensalidades caríssimas que parecem agregar o mesmo valor profissional que um trofeuzinho de futebol estudantil empoeirado na estante do seu quarto.
Achei o post fantástico, além de estar muito bem escrito, creio que esta discussão é muito profunda. A semente que o Doug plantou é muito positiva. Gera uma conversa muito produtiva a respeito da abissal diferença entre “trabalhar” e “ganhar dinheiro”.
Só uma observação: não estou sugerindo que isso está implícito no texto ou comentário, mas questionar a capacidade de um taxista de faturar mais e ter um resultado financeiro mais produtivo é uma forma de exclusão.
Em países desenvolvidos, os trabalhos laborais e de base, por determinação, DEVEM render mais que trabalhos técnicos e criativos. E isso faz muito sentido. Basta levar em conta ao que está sujeito um taxista numa jornada de 18 horas de trabalho na noite de uma metrópole, e comparar ao que está sujeito um estudante de TI em seus freelas + trampo fixo como programador, rotina casa-estágio-faculdade e vice-versa?
A “nobreza” de uma função profissional não se encontra na necessidade de conhecimento técnico que esta requere, e sim na quantidade de sacrifícios e concessões que o indivíduo tem que fazer para executá-la.
A sociedade precisa de taxistas, lixeiros e pedreiros da mesma forma que precisa de programadores, designers e analistas de sistema. Sob um olhar primordial, ou até mesmo primitivo, como cidadãos todos precisamos muito mais “deles” do que de “nós”.
Nada disso quer dizer “jogue seu notebook no lixo, compre um vectra branco usado”. Quer dizer questione, pense, discuta, seja inventivo, e até, como disse o Daniel, “use a cabeça”. Ganhar dinheiro e trabalhar são coisas muito diferentes.
Qual foi a última pessoa que você conheceu que, deixando de lado elementos como sorte, herança, condição social, desonestidade e afins, ficou muito rico apenas trabalhando?
Aproveitando o gancho do André sobre países desenvolvidos. Eu tenho um irmão que está há sete anos morando no Delaware, Estados Unidos. Ele cursava engenharia civil aqui em São Paulo, e, como ele sempre foi CDF, a menor nota dele era oito. Sem ver muita perspectiva no mercado, ele aceitou o convite de ir para os EUA junto com um amigo, cujo o pai era pastor, e estava indo montar um igreja lá. Ele foi com 100 dólares no bolso.
O primeiro trabalho dele foi carregando madeira nas obras, pois lá as casas são de madeira.
Sete anos depois, ele administra uma pequena construtora de casas, se sustenta e a mais três pessoas, sua mulher e suas duas filhas. Mora num bairro bom, e está muito bem de vida. Não volta para o Brasil a não ser para passar férias.
Valeu pelo comentário André, ele tá mais bem escrito que o meu post hehehe
Com comentários desse nível esse blog fica cada vez melhor!
Concordo com tudo o que você disse.
Um grande abraço.
Douglas
O André foi feliz em suas colocações, sou obrigado a concordar e ratificar a diferença entre trabalhar e ganhar dinheiro, como foi muito bem colocado pelo mesmo. Quem não conhece histórias de gente que fez a vida “vendendo pipoca em porta de colégio” ou “fazendo pastel pra vender na feira” ? Isso não necessariamente significa que o investimento em formação e educação seja perda de tempo, ao contrário, mas é importante lembrar que isso não é garantia alguma de sucesso, mas apenas mais uma ferramenta que poderá levar até ele. abraços!
Cara, perfeito o post, não poderia ser melhor. A discussão que começou aqui nos comentários então, impressionante.
Tenho um exemplo desses dentro de casa que gostaria de partilhar com vocês. Meu pai. Ele trabalhava na extinta Eletropaulo até privatizar e virar Bandeirantes, depois a area de informatica virou Edinfor que virou grupo EDP. Meu pai foi o responsável “pe-los” servidores de impressão Unix até ser demitido, quando migraram pra Windows e ele acabou sendo despedido faltando 1 ano para aposentar. Ele acabou abrindo uma loja de decoração… é… decoração, vidros e coisa e tal. Comprou uma saveiro 93 para entregar as encomendas. em menos de 2 anos ele já está com 4 funcionários e ganhando mais que na antiga empresa. Ta certo que meu pai não tem diploma (na verdade ele tem, mas ele tinha comprado, mas comprado legal mesmo, nem foi assistir aula, do dia que ele pagou e recebeu o “canudo” não se foi uma semana), mas ele trabalhar por conta num trampo que ele não precisasse sequer pensar muito, foi muito mais lucrativo.
Vamos ver como continua essa discussão.
Doug, valeu os elogios pelo comentário, cara, mas realmente o crédito vai pro seu post, que começou uma discussão muito necessária.
Cara, no Brasil o futuro profissional individual normalmente é abrir uma empresa. Nenhum emprego te dá a autonomia necessária, e a partir do momento que você abre sua empresa, os encargos tributários te sugam de tal forma que você, se quiser fazer tudo legalmente, acaba amarrado a esta realidade.
Gostei do que o Daniel falou - investir em formação não é errado, mas não é garantia nenhuma. Cada vez mais nós brigamos com um sistema que nos oprime e nos pune por não nascermos milionários. Quebrá-lo é impossível nessa geração, negá-lo é suicídio (talvez não para ermitões, heheh), mas aproveitar de suas brechas para ser inventivo e crescer é essencial.
A história dos impostos é o entrave brasileiro para o crescimento. Eu sempre acreditei na diminuição do Estado através das privatizações, para haver diminuição na carga tributária. Porém o que vemos hoje é o inverso. O governo bate recorde anualmente em arrecadação, e hoje abro jornal e que surpresa, o ano que vem a carga de impostos irá aumentar.
Claro, do contrário como vamos sustentar a insanidade que é o programa Fome Zero?
Na revista Piauí desse mês, contém uma entrevista com FHC. Nela o jornalista relata os dias que passou acompanhando o presidente enquanto atende seus alunos, em seu gabinete, na Universidade de Brown.
Ele explica que o Brasil não vai entrar numa onda de crescimento como a China, por exemplo. Vai continuar esse marasmo por muitas décadas ainda.
Todos os mecanismos que podem dar unidade e regular a sociedade estão falidos. A escola, a família, os partidos políticos e a Igreja, todos fracassaram. Sobrou apenas o mercado, e isso é péssimo. Não existe nada que ajude o brasileiro a se reconhecer como brasileiro, a não ser o futebol, e ainda assim, na Copa do Mundo.
Infelizmente, sempre surge em meio a discussões desse tipo, quem quer fazer da exceção a regra. A maioria das pessoas que vende pipoca na porta de colégio, não vai conseguir pagar faculdade pros filhos; e grande parte dos pasteleiros não tem casa em Ubatuba. Conheço gente que é douta, porém vive na pindaíba. O contrário também existe. Qual a fórmula do sucesso? Resposta: Depende da definição que cada um tem do sucesso. Na dúvida, use o bom senso. abraços!
Amigos, se alguns proprietários cobam até 180 reais de diária, repito, diária, para alugar seus taxis para alguns motoristas auxiliares (que não possuem autonomia)trabalharem e esse auxiliar ainda tem que arcar com 60 reais por dia de gás natural, ainda colocando no bolso ao final do dia de trabalho cerca de 100 reais em média teremos (com finais de semana livres para o motorista): 22 dias úteis * 180 diária = 3960,00 + 60 gnv * 26 dias trabalhados = 2160 + 100 faturamento liquido * 26 = 2600 teremos de faturmento bruto = 8720 reais para um motorista que rala de verdade. Já para aquele que possui o carro e a autonomia, trabalhar cerca de 12 horas por dia e faturar 6.000,00 no final do mês está muito bom. Esses são os fatos no Rio de Janeiro! Em Cabo Frio é melhor ainda, hehehe
É isso mesmo pessoal… mais o rapaz que ficou devendo é um DESGRAÇADO ahuahuiahiua… não é fácil ser um taxista honesto, o procedimento para tal é árduo e CARO (o investimento é alto… pelo menos 80 mil reais)…digo pois trabalho com um senhor que é proprietário de um ponto… dinheiro ganha sim… mais é a grana mais honesta que conheço (pelo menos para nós, que seguimos as regras)… tem que regularizar tudo, pagar impostos , fazer manutenção preventiva, aprender a evitar assaltos, o taximetro tem que passar regularmente por vistoria no IMMETRO (NUNCA ACEITEM fazer corrida com taxímetro sem lacre…), aprender todas as rotas de fuga da região que trabalha, atender o cliente com o máximo de eficiência… enfim… NÃO É UM TRABALHO FÁCIL… ser taxista em si, é fácil… mas MANTER ESTE TRABALHO SEGUINDO AS REGRAS… É UMA VERDADEIRA RALAÇÃO… sem contar a jornada de trabalho, super cansativa… Mas mesmo assim, tenho orgulho do que faço… um trabalho honesto, gera uma renda bem razoável, não faço mal a ninguém e ainda ajudo muita gente (já fui até parteiro x)…)… enfim… existem TAXISTAS e TAXISTAS… lembrem-se disso.
abraços.